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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O pulha ludopédico

Por Ciffero de Parvalho
Ilustração: Henze Saci

Não raro, a direção de um clube de futebol é objeto de ambições de toda ordem: figurões da sociedade, novos ricos, puxa-sacos contumazes e arrivistas em geral vêem, no esporte bretão, oportunidade para fazer valer seu ideário, sua Weltanschauung (visão de mundo).

Tenho reiterado, às vezes de maneira enfadonha para mim mesmo apenas ¾ pois não causo enfado aos outros ¾, que o pensamento mágico é um dos males que está por detrás da ocupação dos cargos do antigo Clube do Povo por mentes muitas vezes financeiramente ricas, intelectualmente pobres e, conseqüentemente, “bem posicionadas” no estrato social porto-alegrino (atentar no neologismo, que, a par de soar irônico, evita indevida remissão a termo não proferido por colorados de bom senso). Em certa medida, bem sei, essa ocupação é inevitável, pois, em meio capitalista, como é hodiernamente o meio ludopédico, não é de se esperar que humildes torcedores, ainda que com boas idéias e politicamente bem articulados, venham a derrotar os abutres reinantes, que voam mais alto por sobre o Guaíba há muito tempo, portanto com experiência, e bem alimentados de toda espécie de carniça, mormente a descartada por Euricos, Joões, Ricardos e Andrés.
Administrar o chamado Clube do Povo, que talvez já não o seja tanto assim, é tarefa em certa medida árdua, pois demanda tempo e dedicação. Ninguém, contudo, é ingênuo a ponto de pensar que o exercício de tal administração se dê graciosamente. Alguma recompensa há, no mínimo a da retroalimentação do prestígio social. Fiquemos nela, para não ferirmos contabilidades: O sujeito entra no comando do clube e recebe, na pior das hipóteses, só por estar ali, ainda que inerte, o poder de levar ao microfone de meios poderosos (ainda que em grande medida jecas, meros repetidores de uma matriz também jeca e vicariamente cosmopolita) o seu palavrório (para uma análise profunda do termo, ver a expressão “Das Geredete”, cara a certo pensador alemão). Ouvidas essas almas que ocupam o comando, retira-se de seus depoimentos, em geral, um extrato que, quantificado em unidades de sentido, remonta a nada. Ab asino lanam, diziam os romanos: Não busque lã em um asno.
Difícil, dificílimo diria eu, é a torcida prestar atenção ao panorama do comando do clube acima traçado quando o time está bem (favor atentar na distinção “clube x time”). Quando o time está bem, os diretores do clube são logo esquecidos, quando não louvados. Esquece-se de tudo em prol do prazer advindo do título, do novo caneco na sala de troféus ¾ e textos como este não prosperam...

Ciffero de Parvalho, porém, não é um oportunista. É, antes, um torcedor. Mas um torcedor provido de humor e de plena consciência do ridículo. Ridículo que traz em seu próprio nome, ao homenagear, com o cômico, dois dirigentes “vencedores” (as aspas são uma alusão ao uso do termo em sua faceta cultural norte-americana, isto é, como contraposição a losers). É preciso que os vencedores desçam do pedestal, que abdiquem do Carnaval, do samba-enredo. E que seus sucessores façam algo semelhante, agora, imediatamente. A história e o tempo são dinâmicos, e não há clichê administrativo que dure para sempre.
Retome-se, enfim, o humor, e com a ele a humildade de trabalhar sério, de não brincar com a emoção de quem torce. O torcedor é figura nobre: dedica horas a fio de sua vida a suprir a absurdidade da existência com o mundo ficto das quatro linhas. E isso não é pouco. Demanda, no mínimo, a vontade de estar vivo quando o mundo real em derredor muitas vezes desmorona. A humildade e o humor nos manterão vivos, mesmo quando pulhas ludopédicos, sem lógica, sem respaldo de título algum, abandonados pelo acaso e pela fortuna que foram, coitados, entupirem-nos com suas sandices, pensando que do outro lado da linha somente haja asnos como eles.

domingo, 1 de setembro de 2013

Coxa 0 X 0 Inter (17ª. rodada do Brasa 2013)

PÓS-PELEIA (2ª.-feira, 11:15)


De quanto foi o empate mesmo? Ah, tá, zero a nada.

Tenho a vaga impressão de que, diferentemente dos anteriores (tirante o dérbi), desta feita o Inter jogou pra não perder. E conseguiu. Digo isso não tanto pela escalação, mas pela "dinâmica de jogo" e o "estado anímico" de nossos jogadores (as aspas se devem ao lugar-comum). A única substituição feita pelo Dungo foi Nacho no lugar do Furlã aos 27' do segundo tempo: uma troca conservadora e que demorou pra acontecer. Ademais, vinha faltando gás e perna, em especial naqueles que atuaram diante do Salgueiro e em Gabriéu. 

O avançado-centro Damien estava bastante descontado (tanto que chegou a ser dúvida) e se perdendo muito pela lateral direita em vez de jogar onde sabe, i.e. centralizado; também foi cobrado a ajudar atrás. O lateral-direito Gabriéu dá nas vistas que a recuperação deixou muito a desejar: acima do peso e sem resistência, respirando como se estivesse em trabalho de parto. O segundo volante Uíliams cansou de entregar várias bolas, desarticulando o meio-campo. O lateral-esquerdo Farbício corroborou que sua única qualidade como futebolista é a disposição física (me indignei com o Chupa-Cabra logo de início, quando ele deixou roubarem-lhe a bola perto da linha central e daí, tendo corrido atrás do cara até a entrada da área, fez uma falta perigosa ao colocar-lhe a mão no ombro).

Amarrados, quase sem conseguir a contenção e nem levar perigo (Dale cobrou muito bem uma falta a longa distância e Yoda fez o único arremate), mais o juizeco apitando tudo pros donos da casa e deixando baterem, terminamos o primeiro tempo no lucro: graças à sorte, à imperícia do adversário, a uma intervenção providencial do Ygor e ao arqueiro Ramsés. 

E começamos o segundo tomando bola no travessão (porongaço aos 3'). O Coxa também vinha duma série de empates (4) e fazia de tudo pra desencantar. Ante esse ímpeto, sequer contrataques conseguimos, até porque nos faltava velocidade. Só voltamos a ter boa oportunidade no lance em que Furlã enfiou pra dentro da área, mas Gabriéu pegou mal. Pra complicar, aos 37' o careca do apito mostrou o segundo amarelo pro Alá. Mas ficamos com um a menos dentro dumas: a essa altura, já queimadas as três substituições deles, um jogador arriou e foi obrigado a ficar no relvado apenas pra fazer número.

Se por um lado não vencemos de novo, por outro não perdemos. Ou seja, um cenário equilibrado pra otimistas e pessimistas.

Somado mais esse pontinho, conseguimos galgar uma posição na tabela: somos o sétimo, com 24, a 10 do líder e com uma rodada a menos. Quarta-feira encaramos os gambás no Vale-Nóia.


Idéia de licenciamento pro márquetin colorado: Copo Meio Cheio.

PRÉ-PELEIA DUPLA TRIPLA QUÁDRUPLA

I.
Por motivos de força maior, vimos declarar que exsurge, do nada circundante, uma preguiça de escrever maior que a citada força – preguiça derivada, em certa medida, da hodierna e momentânea inépcia que circunda a equipe alvirrubra, a qual, cabe frisar, sempre tantas glórias conferiu ao povo gaúcho, mormente aos não-racistas, não-pulhas e não-barros de todas as querências. Não obstante a mandriice ora instaurada, rogamo-lhes comentar, abaixo, o match de hoje.

Indolentemente,
CdP

II.
Após toda a função pela CoBra na zona do cangaço, com direito a atraso no retorno ao Sul etc., o Inter retoma agora às 16 horas, contra o Coxa no Coito Pereira, o Brasa dos pontos escorridos. Devido ao desgaste e ao tempo exíguo, foi cancelado o treino no CT do Furaquinho. Os preparativos se restringiram a banho regenerador de ofurô pra quem atuou quinta e a futepádel pros demais. Ruã, Dale e Furlã, poupados junto com Kréber da peregrinação a Salgueiro, mais Gabriéu, milagrosamente recuperado após alguns meses no DM, juntaram-se ao grupo em Ânustiba.
Portanto, as incertezas costumeiras quanto a quem começará jogando se exacerbaram, de modo que a escalação será divulgada apenas segundos antes da entrada no relvado.
Nossa campanha no certame começou empolgante e logo estagnou. Chegamos em baixa a esta penúltima rodada do primeiro turno. Perdi a conta de quantos empata-fodas enfileiramos. O momento é emblemático. A batata do Dungo está assando sob um fogo atiçado pela flatulência rebística. Urge nocautearmos o Cocoritiba.

Indulgentemente,
HS

III.
É o número de gols que o Inter fará hoje.






Liguedjámente,
D'j


iv.
quinta u veiu viu u inter dizpaxa u carcara na incruziliada du sertao i si garanti nas quarta. curitiba chego nu finau di cesta. sabadu termino agostu i dizcanço pra pelia dumingu contra u coxa. vai troca a cina di impati pela cenda di vitoria.
calendarmenti,
ss

[Roda da Fortuna: 11 "Sem sexo" e 1 "Sexo"] 
Ok, podes girar de novo... mas só porque hoje é teu aniversário.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Reflexões tempestivas sobre o setor defensivo do Internacional

Por Ciffero de Parvalho

Como sabemos, o setor defensivo do Internacional vem causando algum constrangimento aos torcedores. Não fosse o bom desempenho do ataque, o time estaria em lugar indevido na tabela. Não quero aqui fazer a apologia do passado, nem, tampouco, um discurso passadista, mas é inevitável contextualizar, pela via comparativa, o que vemos hoje. 

Os cinco homens que compõem o setor defensivo stricto sensu (Muriel, Ednei, Ronaldo Alves, Juan e Kléber) têm deixado a desejar. Não falarei aqui dos volantes, que, também, andam pecando e não cobrem os vazios porventura deixados pelos colegas que jogam mais atrás. No segundo gôlo do Atlético-PR ontem, por exemplo, o carrinho de Kléber fez com que a bola “espirrasse” justamente para as suas costas, local em que não havia nenhum volante na cobertura. Ademais, o ponteiro direito [expressão nova] atleticano somente teve o trabalho de cruzar a bola no pé de seu colega de ataque, enquanto Juan apenas observava, e Muriel (também conhecido entre seus detratores pelo anagrama portunhol “El Ruim”), a seguir, tirava, incrivelmente, seu corpo da bola, talvez não percebendo que atrás de si havia algo chamado de goleira ou trave, nem que, se a bola cruzasse a linha de fundo , seria golo do time adversário. 

Tenho estado realmente preocupado com o setor defensivo do time, que está, independentemente da rodada, quase sempre entre os cinco ou seis piores desempenhos do Campeonato. Atualmente, são 12 jogos e 18 gôlos sofridos, média de 1,5 gôlo por partida. Ora, essa média exige sempre, no mínimo, dois gôlos para que haja vitória e contraria a lei do menor esforço, aquela segundo a qual apenas um gôlo por jogo é capaz de trazer a eudemonia. Assevero que não sou defensor dessa lei; pelo contrário, gosto mesmo é de golear, respeitosamente, os adversários. 

Disse, acima, que não faria um texto passadista. Porém, como sei que boa parte dos jogadores de hoje mal conhecem a história do clube em que jogam, evoco o nome de alguns senhores que já vestiram a camisa colorada, a fim de que saibam que contextualmente é muitíssimo difícil para um colorado com mais de 40 anos aturar o que vê hoje, pois esse colorado dispõe de parâmetros pelos quais pode bem julgar o que está em campo. 

Comecemos por Don Elias Figueroa, o maior zagueiro da história do Internacional, dono absoluto da área e, como se não bastasse, autor do gôlo que deu o primeiro título nacional ao clube em 1975. Em 1976, a ele juntou-se outro cabeludo, Marinho Perez. Era uma zaga e tanto. Aliás, por falar em cabelos e congêneres, boa zaga é aquele cerrada, fechada, como ensina Nanda Costa... Houve outros bons zagueiros cabeludos no clube, o próprio Mauro Galvão era um deles e, aos 17 anos, sim 17 anos, foi Campeão Brasileiro invicto em 1979. Os zagueiros de hoje deveriam freqüentar o Youtube e conferir o futebol desses caras. Ficariam envergonhados. 

Juan é um bom zagueiro, tem técnica, conhece os atalhos do relvado, mas, assim como Índio, precisa de reposição no segundo tempo. Ronaldo Alves ainda está muito verde, aos 25 anos. E os guris da base desconheço. Portanto, para mim, não temos defesa confiável. 

Quanto ao goleiro, infelizmente acostumei-me bem (ou seria “mal”?) com Manga e Benitez, campeões brasileiros de 1975, 76 e 79. Isso para não falar em Taffarel, que atuou nos anos 80. Desde Taffarel não temos um goleiro excepcional, e com Muriel não é diferente. Adotamos mais um goleiro médio, como se fosse uma obrigação ter um goleiro médio defendendo a bela e tradicional camisa plúmbea. Na verdade, a política do clube é valorizar o goleiro “prata da casa”, mesmo que não se trate de um bom goleiro. Com todo respeito que devo ao ser humano Muriel, não posso deixar de criticar o goleiro que ele é. Não me serve. 

Quanto aos laterais, já tivemos muitos bons, de escol, de seleção: Edevaldo, Rodrigues Neto, Betão (esse sabia das coisas). Hoje temos Kléber e Ednei. Ednei ainda pode aprender alguma coisa... Kleber, bom jogador de futebol, adotou o jogo mínimo, não chuta mais, só marca. Tornou-se irritante. Não falarei de Gabriel (vulgo El Bagri) e nem de Fabrício (conhecido como Chupa-Cabra). Estão aquém da crítica. 

Por fim, cabe ressaltar que o time é comandado por um ex-volante (e dos bons). Causa-me espécie que Dunga, certamente vendo-se como volante no time, esteja conformado com o que tem, digamos, “atrás de si”. A essas alturas do Campeonato só resta treinar incansavelmente o setor defensivo, uma vez que as contratações estão encerradas. Temos ótimos atacantes. Uma solução é, nos treinos, colocar em espaço reduzido do campo, Scocco, Damião, Forlán e Otávio a dar um baile nesses caras que vestem as cinco primeiras camisas do time. Se fossem homens de verdade, os citados cinco defensores não descansariam enquanto não passassem uns cinco jogos sem tomar gôlo.
Relvado à vista! Nanda Costa (capa da Playboy de agosto/2013) pensando na contraproposta.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O clássico no Humaitá

Por Ciffero de Parvalho
Ilustração: Henze Saci

Poderia escrever algo sobre a história do clássico, mas informações desse tipo, amplamente favoráveis ao Internacional, já estão disponíveis no próprio sítio do clube (acredito que o co-irmão deva ter também, em sítio próprio, sua interpretação – distorcida – da história do clássico, porém recuso-me a fazer tal exercício de masoquismo e buscá-la).
=
Poderia, outrossim, escrever uma história eminentemente idiossincrática do clássico, trazendo-lhes, pela perspectiva pessoal, instantâneos (ou “snapshots”, como diriam os ingleses) de minha presença constante no Gigante da Beira-Rio, mas tal exercício egóico-solipsista pouco contribuiria para o que ocorrerá mais tarde no bairro Humaitá.
Bairro limítrofe da Capital, localizado na fronteira com o Município de Canoas, Humaitá é local ainda recente na história de Porto Alegre. Como tal, não se pode esperar que haja, naquelas plagas, tendência por este ou aquele clube. A própria precariedade urbanística de que se reveste o entorno do estádio lá instalado já dá azo a certa irrisão. Estamos, na verdade, em terra desconhecida à espera de um conquistador.
A Arena é um estádio sem raízes, em tudo semelhante a um playmobil em grande escala. Estádio de plástico, enfim – e com gramado ralo. Arquibancadas modernas e torcedores orgulhosos, quase todos vestidos de um azul que julgam cerúleo (mas que – passe a expressão popular – está mais para “saco de lixo”), compõem um invólucro enganoso, frio e inautêntico ao redor do relvado, porque ainda carente de fogo, de sangue vermelho, de poder rubro.
Desenraizada, a Arena espera que lhe plantem golos, sementes que, no futuro, venham, oxalá, a delinear mimeticamente história idêntica à ocorrida em inauguração de estádio dito olímpico – quando os deuses do futebol, encarnados, é claro, beberam à farta do leite que corria das tetas da deusa vitória.

domingo, 21 de julho de 2013

Inter 1 X 0 Flameigo (8ª. rodada do Brasa 2013)

— Acho que vou vomitar...
COMUNICADO

Sensível à sugestão apelante do coautor deste posto, um humanista sempre atento à morigeração universal, tendo ele ainda de zelar pela sua reputação junto à ciumenta ciosa secretária, substituí a ilustração do pós-peleia  uma senhora cujo derrière em movimentos hipnóticos poderia prejudicar o exercício de várias profissões (em especial as que requeiram a operação de maquinário pesado)  por uma foto familial das Cheerleaders (i.e. Animadoras de Torcida) Coloradas, doravante denominadas Sacizetes, gentilmente fornecida pelo sugeridor. No que tange à legenda, não mencionada na rogativa, mantive-a em 50% (cinqüenta por cento). Outrossim, adianto que minha transigência de modo algum denota renegamento dos princípios do Movimento TFP — Trago, Futebol e Putaria.

Henzelosamente,
Sacizão Ruque-Raque

P.S.: Ao final desse fim-de-semana perfeito, a TV Inter Oficial disponibilizou o vídeo do debute delas:


PÓS-PELEIA

Jogo nervoso, bola lá e cá, o Inter com dificuldades de chegar, Murriéu tendo de jogar com os pés em 2 momentos, uma defesa com a ponta das luvas, golos perdidos dambos os lados, o retorno de Damien e Canedus, estreia das Sacizetes, a gente se despedindo do Centenário, friaca baixando pro zero, e placar congelado no zero. Mas nós quisemos muito buscar a vitória até o final! Eis que já nos acréscimos Dale sofre uma falta defronte à área, Jenrique Edinei cobra, Ronauduauvs atrapalha o mulambento Filípi, a gorducha sobra redonda, na feição pro Ruã meter o porongo em meio-peixinho pro fundo, isso mesmo, pro fundo das redes! É nóis!!! De novo arrombamos os flaminguinhos nos acréscimos, de novo em bola parada e feito por jogador criado na Gávea (todos lembramos daquele golzito mata-secador do Dézin pela semifinal da Cobra/2009). Na hora da cobrança, como falei nos pitacos, fiquei secando a fotinha das gurias... o empata-foda seria injusto com elas... e não deu outra: clímax em uníssono! Já era, Mané Menezes. Dungo é o cara! Tamos embalando a criança. Com a chegada dos reforços, teremos mais bala na agulha. Simbora, Colorado!!!
Ata.
Sem medo de ser feliz!
PRÉ-PELEIA

No instante em que começaria a escrevinhar o posto crônico, fui surpreendido pelo obséquio (i.e. barbadinha) do sempre prestimoso Ciffo, radicado na capital fluminense. A fim de não fazer desfeita e principalmente de proporcionar aos habitués um texto de lavra distinta da minha, faço uso das atribuições de "gerento" e dos comandos copiar & colar.
Aquecimento na nossa despedida do Centenário: estréia das Cheerleaders Coloradas.
Ei-lo: 

Prezado Henze,

Sugestão de pôsto (ou pré-pôsto), no estilo Saccifero de Parvenze:

É hoje contra o urubu. Não há colorado que não esteja atento ao fato. Dunga contra o traíra Mano Menezes, Rio Grande contra o Grande Rio, Nescauzão contra Ipanema. Na fria e distante Caxias do Sul, verdadeira cidade-túmulo da vida fácil, em tudo contrária ao espírito brasileiro que emana da baía da Guanabara, o Internacional, que em seu quadro, diga-se de passagem, conta com dois rubro-negros da gema, poderá mostrar a que veio. Scocco e Alex Grilo Falante, ao longe, observam. Os editores do Jardim Botânico já esperam, latentemente boquirrotos, pelo gol de pênalti redentor pró-Gávea que sirva para ilustrar o melhor do futebol do péssimo "Fantástico", o pior e mais duradouro programa da televisão mundial, verdadeiro aniquilador de corações e mentes. O Internacional, contudo, contra qualquer rede suja (e sucursais imundas), quer despedir-se de maneira honrosa da colônia italiana, a fim de ingressar na alemã com tudo o que a Coroa Portuguesa lhe deu de direito: o verdadeiro clube mestiço do Rio Grande entrará com tudo na terra do cu vermelho e lá continuará a fazer história.

Atenciosamente,
Ciffero de Parvalho, imã

terça-feira, 30 de abril de 2013

57 horas

Algumas mentes administrativas centram seus argumentos em números, como se eles, números, fossem garantia de alguma coisa, de um bem-estar eterno, de um controle automático e “científico” do mundo circundante. No esporte bretão (também conhecido como futebol, pedibola, ludopédio, bolapé, podosfera ou balípodo), não é diferente. Hoje, há estatísticas para tudo: quanto tempo o perna-de-pau ficou com a bola durante o jogo, quantos passes errados deu durante os 32 minutos e 49 segundos em que esteve em campo, quantos golos marcou na última temporada etc. Esses dados importantíssimos são repetidos ad nauseam nas transmissões hodiernas, mormente naquelas da principal transmissora do País, detentora, no futebol, de direitos que nem mesmo o maior dos senhores sonhou ter sobre seus escravos no tempo em que havia escravidão involuntária (hoje, voluntária). (Para adentrar o tema dos princípios da Comunicação Social, recomendo a leitura dos artigos 221 e 223 da Constituição).
Ora, se o analista de futebol que baseia seus argumentos em números é, como diriam meus avós, “um chato de galochas”, não há porque não sê-lo eu próprio apenas uma vez, já que, em geral, brindo meus leitores com textos agradabilíssimos... Falemos, portanto, desse fetiche dos cidadãos anais de todo o mundo: os números. Mas não em seu sentido primeiro, pitagórico. Fiquemos no nível instrumental, isto é, no nível utilitarista e raso com que as animálias das estatísticas ludopédicas, em geral mentes rasas, tanto se comprazem. Pausa para a ciência:
“As características essenciais do Transtorno Obsessivo-Compulsivo são obsessões ou compulsões recorrentes suficientemente graves a ponto de consumirem tempo (i. é, consomem mais de uma hora por dia) ou causarem sofrimento acentuado ou prejuízo significativo. Em algum ponto durante o curso do transtorno, o indivíduo reconhece que as obsessões ou compulsões são excessivas ou irracionais. (...) No curso do transtorno, após repetidos fracassos em resistir às obsessões ou compulsões, o indivíduo pode ceder a elas, não mais experimentar um desejo de resistir, e incorporá-las em suas rotinas diárias.” (DSM-IV, 300.3. Cortesia: Clínica Psiquiátrica Dr. Parvalho). 
Vejamos, primeiramente, no principal certame do balípodo nacional, e, mais especificamente, no que diz respeito ao Internacional, os efeitos dos números sobre o clube em si e sobre seus torcedores (a análise que farei, não obstante, serviria a qualquer clube da Primeira Divisão). O primeiro número que salta aos olhos de qualquer criança é o que dá título a este pôsto (versão portuguesa para o inglês “post”. O circunflexo é essencial para caracterizar o caráter substantivo do termo, em oposição ao indicativo do verbo postar, “posto”, cujo primeiro “o” é aberto. Ver Reforma de 1943, que ainda sigo em alguns aspectos). Refiro-me ao número 57. Ora, como já dissemos, qualquer débil mental percebe que esse número deriva do simples ato de multiplicar 90 (número de minutos de um jogo) por 38 (número de rodadas do Campeonato Brasileiro), que totaliza 3420, número total de minutos em campo de qualquer clube no citado campeonato, e que, convertido em horas, transforma-se em 57 (3420/60). 
Certamente, dirão alguns, para um cálculo mais abrangente, seria necessário computar também os 570 minutos de intervalo, ou 9,5 horas, decorrentes dos habituais 15 minutos que separam a primeira da segunda etapa no esporte podosférico (15 x 38 = 570; 570/60 = 9,5). Assim, além das 57 horas em campo, teríamos outras 9,5 horas de intervalo ao longo do ano. Não satisfeito com isso, algum discípulo de Chatotorix poderia aduzir: “E os minutos de desconto ao final do jogo? Você não vai computar os minutos de desconto no seu cálculo?”. Cedamos, em nome da ciência, a essa criatura, acrescentando ao cálculo os 3 minutos em geral concedidos pelo árbitro ao final do segundo tempo: 3 x 38 = 114. Pelo bem da aritmética, arredondemos esse número para 120, ou duas horas. Chegamos, então, a um novo número: 57 + 9,5 + 2 = 68,5 (arrendondemos para o sagrado 69). Considerando, por fim, que, para o torcedor, haja um dispêndio mínimo de pelo menos uma hora por jogo com o pré e o pós-peleia, percebemos que o envolvimento com o clube passa de 69 para 107 horas (69 + 38) anuais. Frisemos que esses números valem apenas para o torcedor que assiste a todos os jogos de maneira razoavelmente comedida. Em se tratando de torcedores obsessivos, o número deve chegar tranqüilamente a 200 horas. Sejamos, porém, modestos, e voltemos às 57 horas iniciais, para resumir e fechar o texto.
68,5 = (temos-todo-o-tempo-do-mundo X demorô-já-é)
Todo colorado que acompanha o Brasileirão dedica ao clube – no mínimo, ao ano – 57 horas de sua vida, tempo em que o Internacional permanece em campo para disputar o título da Primeira Divisão. O clube, por sua vez, precisa entender, de uma vez por todas, que todo o esforço feito interna, administrativa e desportivamente por seus comandantes e comandados reduz-se a essas 57 horas em campo. Nessa mísera fração de tempo anual (lembremo-nos de que em geral dormimos 2920 horas por ano [365 x 8]), o clube pode passar do nada que se instaurou em 1979 ao título de campeão em 2013 (o mesmo que nos foi surrupiado à mão-grande e de maneira discreta, respectivamente em 2005 e 2009). Não queremos ratos no comando da embarcação alvirrubra. Chega de desculpas esfarrapadas! Luigi, Dunga e Paulo Paixão, resolvam esta pendenga.

Imperativamente,

CdP, 
Conselheiro perpétuo
Ilustração: Henze Saci

terça-feira, 23 de abril de 2013

Futebol e pensamento mágico

Por Ciffero de Parvalho

Há clara distinção entre pensar racionalmente e pensar magicamente. Quem conhece os motivos pelos quais Luiz Felipe Scolari foi de novo alçado ao cargo de técnico do escrete nacional sabe que o pensamento mágico tomou as rédeas da situação: a vitória em 2014 seria magicamente decorrente da conquista de 2002.
A mágica da cartolagem [bônus #1 do Henze]
Na esteira desse pensamento, tenho ouvido “pérolas”. Há pouco, circulando pela nossa Capital, tive de tomar um táxi na Rodoviária, rumo ao Salgado Filho. Eis que o motorista do veículo perguntou-me: “O senhor gostaria de ir pela Farrapos ou pela Castelo Branco?”. Disse-lhe eu: “Vamos pela Castelo Branco”. Recebida a autorização para fazer a corrida mais longa, notei além do sorriso de lucro no rosto do rapaz, uma felicidade incontida ao passar em frente da Arena Playmobil — felicidade que se materializou nas seguintes palavras: “Aqui está o estádio da Seleção...”. Respondi-lhe de pronto: “...Que não ganha nada há anos, por sinal”. E assim ficamos, por alguns instantes, sob a luz da ambiguidade de minha frase, que, como a dele, tanto valia para a Seleção Brasileira quanto para o time do bairro Humaitá. A seguir, por uma questão de urbanidade — esse rebento da civilização —, falamos um pouco de nossos times, eu apontando os pontos fracos do meu, e ele, os pontos fracos do dele...
O Batatal Humaitá e a Copa [bônus #2]
A frase do taxista ingressa naturalmente naquilo que chamamos de “senso comum” (aliás, os taxistas são de fato portadores da prerrogativa de falarem o óbvio. Não que sejam burros; é que criar altercação com o cliente não é algo inteligente). O “senso comum”, todavia, muitas vezes repugna ao pensamento mais elaborado. Chamar a equipe do pijama de três cores de “Seleção” beira o rídiculo... Essa frase, jocosa, segundo a qual, com a ascensão de Scolari ao comando, também ascenderiam à titularidade do selecionado nacional os jogadores de seu gosto imediato (isto é, em tese, jogadores gaúchos, ou de estilo gaúcho, preferencialmente os de seu clube do coração), reflete, ademais, não só o pensamento mágico, mas certo revanchismo, qual seja, o relativo à natural exclusão a que nós, gaúchos, somos submetidos quando o assunto é futebol. Sobre o tema, basta evocar duas entidades, CBF e Globo, as quais de fato primam pela manutenção de um estado de coisas favorável, em grande medida, ao futebol do centro do País, especialmente Rio e São Paulo.
CBF & Globo Ltda.: RJ + SP = Brasil [bônus #3]
Assim, o gaúcho, ao ver Felipão no comando, sente-se menos lesado. Sente-se, digamos, partícipe do imbróglio, pois o técnico passo-fundense goza de muito mais representatividade do que seu antecessor. Felipão, por sua vez, também não se faz de rogado e, apostando fundo no populismo, convoca, mais do que ninguém, jogadores de sua terra. O pensamento mágico, destarte, tanto vai como vem: povo e treinador alimentam-se mutuamente com generosas porções de magia. A última novidade desse cardápio foi a convocação de Moledo. Sobre isso, falo eu, a seguir, na condição de colorado.
O passo é fundo... [bônus #4]
 Ora, Moledo não está pronto ainda para a seleção. Acho-o um zagueiro promissor, mas que ainda não atingiu aquela condição de segurança esperada de um beque (para sentidos secundários desse termo, consultar meu amigo Henze, versado em cigarros e assemelhados). Não posso abdicar da minha racionalidade e, repentinamente, aplaudir sua mágica convocação. Pelo contrário, lamento-a, tanto mais que, no clube, o zagueiro fará falta, assim como fazem Forlán e Damião. Não temos recursos, não temos “gordura a queimar”. Todos os nossos jogadores são essenciais, sejam eles bons ou apenas razoáveis. Nossa reposição não é confiável.
Cane Nabis, vulgo Cannabis, o cão de Nabis (rei de Esparta, c. 200 a.C.) [bônus #5]
Em resumo, sou, hoje, em escala caseira, contrário à convocação de Moledo. Prognosticamente, e em escala nacional, antevejo a derrocada de nosso ludopédio em momento e local anterior ao Maracanã, esse reduto paquidérmico daquele que já foi o melhor futebol do mundo. 

Lucidamente,
CdP

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Brasileirão e os dias

Por Ciffero de Parvalho

O Campeonato Brasileiro (vulgo “Brasileirão”) começará no dia 26 de maio, portanto daqui a exatos dois meses. O certame estender-se-á até o dia 8 de dezembro. Ora, entre 26 de maio, data de início, e 8 de dezembro, data final, a Terra dará 197 voltas em torno de si.

O Campeonato será interrompido, para dar passagem à Copa das Confederações, entre os dias 10 de junho e 6 de julho, isto é, durante 27 dias, reduzindo-se o número de dias com futebol no Campeonato Brasileiro para 170.

Trabalhemos então com o número efetivo de dias com futebol: 170. Esse número, dividido pelo número de rodadas, 38, redunda em um jogo a cada 4,4 dias.

Pausa (muitas, de semibreve): vejam que, no parágrafo anterior, usei o termo “efetivo”, para dar uma faceta administrativa ao texto. Como sabemos, palavras como essas são “efetivamente” expletivas, isto é, desnecessárias: só servem para encher a paciência de quem lê. Retirem-nas do texto e verão que o sentido não é alterado. No primeiro parágrafo, lá em cima, usei a interjeição “ora”, verdadeiro cacoete jurídico, utilizado sempre e conscientemente por esse que vos fala, como marca do ponto de onde parte o discurso. Nesse caso, não há falar em caráter expletivo.

Se o Campeonato Brasileiro é disputado em 170 dias e a Copa das Confederações em 27, temos o já citado número de 197 dias ocupados em um calendário de rígidos 365. O saldo de dias livres para outras competições é de 168 (365 - 197 = 168). Desse número, 168, tiramos os regulares 30 dias de férias, e chegamos a outro: 138. Portanto, todo o incômodo que assola os torcedores que não suportam os certames estaduais está contido nesse intervalo: 138 dias. Durante esse tempo, sugiro que os apreciadores de futebol dêem mais atenção às suas esposas...

Torcedor que não curte o Estadual aproveita pra dar mais atenção à patroa (bonus #1 by Henze)

Pausa (algumas, de semínima): para não dizer que apenas listei os problemas sem oferecer soluções práticas e imanentes é que, “pró-ativamente” (eis mais um termo ao gosto dos gênios administrativos), escrevi os parágrafos que se seguem.

Particularmente, considero o Campeonato Brasileiro muito longo. Chega um momento, lá por setembro ou outubro, em que o tédio já começa a instaurar-se. Considero, também, o Campeonato Estadual muito longo: ao final de março, mês em que estamos, já poderia estar encerrado. Mas aí vem uma questão: se os dois Campeonatos são muito longos, o que fazer para torná-los mais interessantes?

Uma hipótese é dividir o Brasileirão em dois, por meio do conhecido “Efeito mitose” (Trata-se do popular “Brasileirão Mitótico”: copyright Ciffero de Parvalho): O campeão do primeiro turno decidiria o campeonato, em jogo de ida e volta, contra o campeão do segundo (se o mesmo clube vencer os dois turnos, será o campeão). Se houver decisão, o calendário precisará de mais duas datas.

Brasileirão Mitótico? (bonus #2 by  Henze)


Outra hipótese, mais ousada, seria dividir o Brasileirão em quatro (“Efeito meiose” ou “Brasileirão Meiótico”,copyright Ciffero de Parvalho): Dois grupos (A e B) de dez times, jogando, primeiramente, de maneira cruzada (A contra B, num total de 10 rodadas) e, depois, de maneira interna (A contra A, e B contra B, num total de 9 rodadas). Encerrados esses dois primeiros turnos, um cruzado e um interno, fazem-se os jogos de volta (mais um turno cruzado e mais um turno interno, portanto). De cada turno, sai um campeão (os turnos são decididos em jogo único entre os campeões de cada grupo, como no molde atual do Gauchão). Finalmente, chega-se às semifinais do Campeonato, disputadas pelos campeões dos 4 turnos, para decidir quem vai à Finalíssima (se um clube ganhar dois turnos, passará diretamente à Finalíssima; se ganhar três turnos, será declarado campeão).

Brasileirão Meiótico? (bonus #3 by Henze)

Os Campeonatos Estaduais, por fim, poderiam ser mais curtos, aproveitando-se o tempo restante para um torneio regional (Sul, Sudeste, Norte, Nordeste, Centro-Oeste) de tiro curto. Para não esfriar essa espécie de torneio, seus campeões levariam uma bonificação (três pontos?) para o Campeonato Brasileiro ou para os certames em que estiverem inseridos.


Matemática, biológica e efetivamente,

CdP, leitor de Hesíodo

quarta-feira, 20 de março de 2013

5 súmulas sobre a realidade do futebol no RS em 03/2013




Cinco súmulas sobre a realidade do futebol no Rio Grande do Sul em março de 2013

Por Ciffero de Parvalho


I. Internacional


O clube está a perpetrar uma reformulação no plantel e tem, como mola mestra desse empreendimento, a gana de Dunga e o profissionalismo de Paulo Paixão. O futebol dos jogadores, estrelas ou não, é decorrência do trabalho desses dois homens. Os administradores do clube, de fato, pouco mais fizeram do que acertar na escolha dos profissionais da casamata, algo que qualquer colorado com razoável bom senso faria sem diploma algum de Administração ou sem usar gravata e vocabulário imbecilizante à moda ianque. 



II. GFPA


O clube mais querido do povo da Rede Brasil Sul continua sua sina rumo à empáfia eterna. Títulos são cada vez mais raros; não obstante, o clube é esquizofrenicamente tratado como se fosse portador do melhor time do planeta. A tão propalada imortalidade é uma quimera transformada em certeza por torcedores burros de carga e pelos jornalistas-vendilhões de sempre. O estádio do clube não lhe pertence e, incensado em rede nacional por sua modernidade, não passa de um brinquedo na mão de empresários gananciosos que fizeram uso da credulidade de inocentes.



III. Campeonato Gaúcho


É um certame obsoleto, como de resto são todos os certames estaduais. Perde-se muito tempo com jogos inócuos e soporíferos, até mesmo para os torcedores do interior. É preciso reformular o futebol brasileiro como um todo. Não se trata, porém, de aniquilar os clubes do interior e de privilegiar os atuais times grandes. Futebol é um processo, e não algo estanque. Clubes do interior, como Santos e Guarani já venceram o Brasileiro. Necessário se faz reunir as cabeças pensantes do futebol e encontrar um modelo mais atraente. 



IV. Imprensa futebolística gaúcha


É um desastre. Há colunistas e jornalistas semi-analfabetos, cujos textos envergonhariam qualquer aluno bem formado de colégio secundário. No que diz respeito à palavra falada, também falta um mínimo de refinamento no trato do idioma e da lógica. Um programa de rádio de alta audiência, o conhecido Sala de Redação, antes frequentado por senhores de razoável formação, é um exemplo emblemático de como a senilidade, a obtusidade e o gremismo a qualquer preço são capazes de destruir, em dois ou três anos, o que foi construído em cinqüenta. 



V. Imprensa alternativa 


Os chamados “blogs” e “sites” alternativos são, há alguns anos, reduto da melhor informação e de vida inteligente no que concerne ao esporte bretão. É de espantar a perspicácia e a clareza que brotam das páginas de alguns desses sítios alternativos, destacando-se, sobremaneira, nesse âmbito, a lucidez de Ciffero de Parvalho e a ironia de Henze Saci. 



Hábil e concisamente,

CdP, estratego

[Ilustração: Henze]

terça-feira, 12 de março de 2013

Sobre homens e ratos




Barão de Coubertin

Sobre homens e ratos 


Por Ciffero de Parvalho

Sabemos todos que uma das maneiras de fazer valer um argumento é apelar, primeiramente, à dicotomização, isto é, polarizar o tema sobre o qual se fala, a fim de marcar posição, conquistar aliados e definir claramente quem é o inimigo.

No futebol, não é diferente. Eu próprio faço uso, no título deste texto, de uma tradicional dicotomia: ao sustentar a tese de que há homens e há ratos, quero, obviamente, insinuar, desde o princípio, que o segundo termo do título, ratos, faz referência a homens covardes, menores, que não se comparam aos homens propriamente ditos.

Pois bem, elencadas as premissas de que parto, passo, a seguir — e para não cansar o leitor hodierno, que, não raro, reclama de ler parágrafos e textos longos — a um tema intimamente relacionado ao presente de nosso clube. Reporto-me ao seguinte: deve o torcedor colorado, nestas alturas do campeonato, apoiar o trabalho que está sendo feito pelo time engendrado pela Direção atual ou deve não apoiar? Ora, essa dicotomia é de fácil resolução e, no frigir dos ovos, acaba por privilegiar o primeiro termo, o apoio, uma vez que mesmo os torcedores que abominam a “decadência” do time desde a Libertadores de 2010, são, em última análise, colorados e, portanto, não deixariam de apoiar, ainda que em menor medida do que os torcedores satisfeitos, o que há de bom no presente.

Dito isso, saio da dicotomia e ingresso em uma síntese, qual seja, aquela que parte do pressuposto de que todos os colorados querem o melhor do time (e, por extensão, do clube), independentemente de quem esteja na Direção. É sabido que o atual Presidente não goza de apoio incondicional da torcida, nem, tampouco, de todos os Conselheiros, em boa parte porque houve manobras políticas, nas últimas eleições, que a muitos não agradaram. Cumpre, para fim de levar a cabo o argumento exclusivamente futebolístico, abstrair essa questão política e clubista. Porém, antes disso, necessito de mais um parágrafo.

Como antigo comentador arbóreo em espaços virtuais (blogs e fóruns de discussão) de pouco oxigênio, venho tentando, ao longo do tempo, demonstrar, talvez mais dialeticamente do que dicotomicamente, que o Clube do Povo passa, já há 15 anos, por uma crise de identidade. Não se trata, como disse acima, de mera escolha política, ou de mera preferência por este ou por aquele grupo de comando; trata-se, isto sim, da implementação de um novo modelo de gestão (ou de “indigestão”, como talvez dissessem o legítimo Ciffero de Parvalho e o perspicaz Henze Saci). Nesse modelo, a “profissionalização” é posta como uma idealizada vestal diante de uma suposta e concreta “esculhambação”, isto é, diante de tudo que não incorpora determinadas doutrinas e regras de um campo do pensamento político que bem conhecemos, qual seja, aquele que desde o princípio instaura termos e necessidades vicárias, como “CEO”, “estádio modelo shopping-center”, “nova realidade econômica (e consequente banimento de torcedores ‘menos privilegiados economicamente’)”, “roletas eletrônicas, para que somente ‘pessoas de bem’ entrem no estádio” — argumentos todos favoráveis a um estado de coisas bem conhecido na história recente da Humanidade, bem como a uma espécie de privilégio de castas que afasta, e já afastou, como eu mesmo disse em outros sítios, o torcedor humilde, aquele que pagava os seus “cinco cruzeiros” e vivia, com seu radinho de pilha, alguma felicidade na antiga coréia. Hoje, ficou só com o radinho de pilha.

Terminada a digressão política, e populismos postos à parte (o que não exclui o velho e bom humanismo), volto ao futebol, já que estamos diante de um impasse nesse campo. O Internacional vence o primeiro turno do Campeonato Gaúcho com uma vitória maiúscula sobre o São Luiz. O torcedor colorado mais simples está contente... Porém, o colorado mais crítico pergunta-se: “O que faço agora?”. Outras perguntas prováveis desse colorado: “Será que devo elogiar esse time que está aí?”; “Será que devo esquecer as agruras vividas nos últimos dois ou três anos?”; “Será que devo elogiar uma Direção de que não gosto?”.

Muitas vezes, por responder “não” a essas três últimas perguntas, pensa o colorado crítico que está prestando um serviço de excelência a todos que o cercam, ao seu auditório, como diriam Chacrinha e Perelman — como se fosse esse coloradinho o último baluarte da razão e do verdadeiro interesse pelo bem-estar do time e do clube. Pensa mais o tal coloradinho: que os demais colorados, tolos e facilmente ludibriáveis por uma ou outra vitória, jamais poderiam alcançar seu ponto de vista, porque não pensam, ó imodéstia própria de mentes obtusas, como pensam os verdadeiros detentores da razão, os críticos do amanhã, ele e seus filhos, infensos para sempre à objetividade.

Cumpre, por fim, analisar precisamente isso: a objetividade, mote primeiro do futebol, consumado sob a forma de vitória. Como devemos a ela nos curvar sem que percamos a dignidade? Sem parecermos, como diria insigne dramaturgo carioca, “idiotas” dela mesma? Verifica-se, facilmente, que o pensamento futebolístico, crítico ou não, é todo dicotômico. Senão vejamos: uma vitória sobre clube do interior, em final de turno, é ou não é melhor do que uma derrota? Até mesmo em elemento externo a essa equação, qual seja, o fato de o maior rival estar fora da disputa, prevalece o raciocínio dicotômico: é ou não é melhor estar na final do Gauchão do que não estar? Dirão os críticos, verdadeiros reis da extrapolação: “Ah, mas eles estão na Libertadores”. Pergunto-lhes eu: vocês estão de fato preocupados com o estar na Libertadores ou com o vencer a Libertadores? É óbvio que a preocupação maior é com a possibilidade de o rival vencer a Libertadores, o que, de resto, só reforça a tese de que o raciocínio no Futebol, mesmo entre os críticos, é sempre — perdoem-me a insistência — primeiramente voltado ao que acontece no campo e, conseqüentemente, dicotômico, pois lá só nos importa a vitória em contraposição à derrota. Mesmo quando se sai da quantidade — Campeonato Gaúcho — e se passa à qualidade — Libertadores — o que interessa ao torcedor, simples ou crítico, é o ganhar, pois é aí que reside a essência agonística do futebol, ao contrário, a propósito, do que pregava o Barão de Coubertin. Fôssemos dialéticos nesse quesito, quereríamos todos, talvez, o empate eterno, a supremacia do princípio da eqüidade, tão bem defendido por Rawls.

O problema de fundo é que os torcedores críticos (cujas características estão elencadas acima) trabalham mal a lógica. Quando o clube pelo qual torcem tudo ganha, entopem-nos com raciocínios exclusivamente dicotômicos, não raro soberbos: “Nós somos os campeões (infere-se: os outros, os perdedores)”; “Não tem para ninguém”; “Campeão de tudo”. Abstraem, nesse caso, os problemas administrativos em prol do prazer que extraem da vitória. Basta que o clube passe a perder, ou a deixar de ganhar mais freqüentemente, para que passem a extrapolar a dicotomia que antes os governava. O futebol passa, então, ao segundo plano, e entra em campo a “ciência” da Administração.

Dessa ciência conheço bem os pressupostos e os produtos, em boa parte abomináveis. Em verdade vos digo, ó animálias sem espírito: Vós, que fostes campeões do mundo com Ceará, Edinho e Wellington Monteiro, não sabeis que aquela vitória não é fruto de boa administração? Ou acaso pretendeis defender a tese de que um bom administrador contrataria jogadores daquele quilate para enfrentar o supra-sumo catalão e mundial da administração ludopédica? Não enxergais, ó almas ignaras, que o futebol é também fruto do momento e do que ocorre em um dia de trabalho sob o sol?

Separemos, então, o joio do trigo, a política do futebol e os ratos dos homens. No gramado, seja grama de jardim, seja grama de última geração, está sempre, queira-se ou não, diante do olho do colorado, somente aquilo que ele pode e consegue, kantianamente, enxergar: o time do Sport Club Internacional. Os homens voltam-se ao campo; os ratos, ao fétido gorgonzola da cozinha de seu CEO predileto. Do time ao clube há uma vida e léguas de distância, na mente e no espírito. Aqui e em Ijuí. Os jogadores são passageiros, NÓS somos passageiros. No futebol, o mito suplanta a história.


O jovem Nietzsche
Arbórea e Übermenschianamente,
CdP, thinker

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Metafísica (bonus by Henze)

BENZADEUS! (Le Ruque-Raque Blogue & The Black Tape Project)